Desta vez o convite é para bailar. Pés de chumbo e primos do Fred Astaire estão convocados para o festival Roda a Saia, evento que junta tímidos e extrovertidos, moonwalkers e duros de rins, nascidos para a música e duros de ouvido. Não há desculpas. As danças tradicionais assentam arraial em Leiria, com a cultura do novo baile português, um cheirinho a Irlanda e folk belga de influências jazzísticas. Se não sabes nadar, como este que te escreve, podes encostar-te no cantinho e aproveitar o concerto, a bater o pé direito sem ninguém ver. A festa é mesmo para todos. Começa sexta-feira (dia 11) no Jardim Luís de Camões e sobe ao Castelo sábado e domingo.
Não é apenas o Rock in Rio que tem cabeças de cartaz, o Roda a Saia também. E não é a Ivete Sangalo pela sexta vez. As estrelas deste festival de música e danças tradicionais do mundo são os portugueses String Fling, 2² , B’rbicacho e Paulo Bastos, e também o duo Bogus, da Bélgica.
Se sempre quiseste saber por que está sol na música irlandesa e chove na música portuguesa, sábado é o momento. Também podes aprender a impressionar o sexo oposto com guitarras e gaitas de foles ou explorar o maravilhoso universo das mazurkas, valsas e voltinhas. Sim, rodar é uma arte e há técnicas infalíveis para rodar como uma matrioska no grande carrossel da feira de Maio. Para descobrir estes e outros segredos milenares basta percorrer o programa do Roda a Saia.
As crianças, pequenas ou crescidas, não se podem queixar. Domingo há contos ao pôr do sol e durante todo o fim-de-semana sucedem-se as actividades para os mais novos e para a família. E para verem como está tudo pensado, até para os patudos e pés peludos, as manhas mais difíceis são ensinadas durante o dia e assim todos podem fazer boa figura nos bailes nocturnos. A segunda edição do Roda a Saia, depois da estreia em 2013 no Ateneu de Leiria, é também um festival com preocupações inclusivas. Uma das oficinas de dança é para participantes com problemas de visão e normovisuais vendados. Está ainda prevista uma visita guiada para cegos e pessoas com baixa visão.
Portanto, em resumo: jogos, gastronomia, seis concertos-baile, 13 oficinas, três sessões de conversa e um baile para famílias. Não falta nada. Roda a saia e arredonda-a bem. Prova que és uma trad queen.
“É como uma máquina de lavar roupa em que puseram LSD”
Cultura trad folk, o que é isto?
Manuel Leiria (da organização do Festival Roda a Saia): Tem origem um pouco por toda a Europa, incluindo a Europa que nos inclui. É um movimento que pega na música e na dança tradicional e a reconfigura, reajusta e recalibra, para a tornar mais facilmente acessível, menos rígida e, sem dúvida, muito mais divertida. Aqui pode-se dançar uma valsa pisando pés, falhando tempos, errando voltas, sem que isso seja visto como um crime lesa-Viena. Ninguém leva a mal. Bom, em alguns casos, quem é pisado tem um pouco menos de tolerância… Mas dançar trad folk é dançar com espírito aberto, como se sabe e como se consegue. E quem diz valsa, diz mazurcas românticas, scottishes diabólicas, círculos loucos, chappelloises estonteantes ou até coisas com nomes mais pontiagudos, como tzadiks katamares ou rumelajes.
E o Novo Baile Português?
É como o trad folk, mas aplicado à nossa tradição. É um movimento nacional que procura – e consegue em muito! – recuperar o espírito dos antigos bailes (ou “balhos”), mas modernizando-os e levando-os a todo o lado: do centro de Lisboa a uma aldeia perdida no meio da serra mais perdida que possas imaginar. Claro que, como no trad folk, há quem se vista como se tivesse vindo de uma feira medieval, mas ninguém leva a mal se aparecermos de calções de banho e havaianas. É também um movimento que recupera músicas e danças de grupos folclóricos, vencendo o preconceito e levando muita gente a essas danças. No Novo Baile Português dança-se vira, fado, polca, malhão, regadinho, saia da carolina e, claro, o repasseado. Acredita que ninguém resiste ao repasseado. É como entrar no ciclo de centrifugação de uma máquina de lavar roupa em que puseram uma dose de LSD em vez de detergente!
Que circuito existe?
Há muita gente a dançar estas músicas tradicionais europeias e portuguesas por todo o país. O ponto alto é o Andanças, onde se concentra uma multidão de apaixonados destas e de outras danças, mas durante todo o ano há quem dance informalmente ou em oficinas organizadas um pouco por todo o lado. Em Leiria, há cerca de um ano que voltámos a dançar, sempre às segundas-feiras, no Mercado de Santana. O festival Roda a Saia é também resultado do crescimento e da adesão que estas danças têm tido por cá.
Destaques do programa?
Os bailes à noite, com músicos verdadeiramente surpreendentes e totalmente desconhecidos do “grande público” são sempre o mais apetecível nestes festivais. Mas o Roda a Saia terá um cariz especial, porque é o único no país realizado num castelo. Vários momentos prometem muito, porque vamos utilizar diversos espaços do castelo para oficinas de dança, conversas, para o baile com as famílias ou, nem que seja, para comer jaquinzinhos ou favas e beber um hidromel sentados na muralha! Beber hidromel a olhar Leiria lá de cima, enquanto tocam os Bogus, também promete ser um grande momento alto – nem que seja porque é lá de cima e aquilo com mel tem uns graus valentes. Mas, pensando melhor, isso não deve acontecer, porque vamos todos querer estar a dançar!
- Festival Roda a Saia 2014
- Leiria
- 11, 12 e 13 de Abril
- Jardim Luís de Camões e Castelo
- Passe geral: 27 euros
- Bilhetes diários: 6 euros na sexta-feira, 13 euros no sábado e domingo
- Entrada limitada a 300 pessoas por dia
- facebook/rodaasaia
Fotografias de Festival Roda a Saia
(Publicado a 10 Abril 2014)
Noticia retirada de Preguiça Magazine
